Emicida foi escolhido pelo rap. Está escalado pro melhor time. Em suas músicas, fala do que vê, do que vive e do que sente. Poderia me apropriar de outros versos seus pra contar sua própria história. Afinal, está tudo lá. Sua infância, o começo no rap, seu pai, sua mãe, o nascimento da filha, a ida pra África, lições que mudaram sua vida completamente.

Mas o ponto importante aqui é ver como essa característica diz muito sobre o lugar onde ele está hoje. Emicida transforma sua história na história de todos. Não é por acaso que seu som foi além do seu bairro, da sua cidade, do seu país, do seu continente.

Quando ele fala em pôr o sonho na mochila e sair vendendo disco a 2 reais, todo mundo se sente mais confiante em se colocar como quer no mundão. Quando mostra sua firmeza pra encarar o racismo, o recado vai além: ninguém vai derrubar o certo. E esses são só dois exemplos.

Particular e universal nas letras, ele avançou também no som. Colocou o rap nacional para dialogar com a música brasileira. Não como acessório, não como importação, mas como parte dela. No samba de breque, nos repentistas nordestinos, a música falada está no DNA. Seu show hoje não cai pro rock, não cai pro samba, cai num jeitão novo que ele encontrou.

Ao mesmo tempo, ele colocou o rap pra voltar a dialogar com a televisão, com os jornais e com novos palcos. Ele pode até não ser o responsável direto pelo sucesso de muito nomes da mais nova geração do rap nacional, mas ajudou a derrubar muitos muros que esses artistas novos já não precisam enfrentar. E só reparar como o rap anda mais presente por aí.

Já notou que o Emicida não foi apresentado por ninguém? Seu primeiro recado veio em “Triunfo”, onde apostou toda as suas fichas. Foi o som certo, na hora certa. Ele se impôs e foi ouvido, muito por conta de um diferencial importante.

Afinal, ele entendeu cedo que nem só de cabeça sólida é preciso pra ir tão longe. Sem organização, muito trabalho bem feito pode ir em vão. Só olhar o que a velha indústria fez com mestres da nossa música, muitos que não recebem mais pelo seu trabalho. É nesse ponto que é preciso entender a força da Laboratório Fantasma. A firma dele com o irmão, formada com amigos, faz história por iniciar uma nova conversa na música brasileira. As gravadoras faliram. O mercado fonográfico, sempre meio capenga por aqui, precisa ser repensando.

Que a revolução seja feitos pelos artistas – e ela já está em curso e funciona há tempos. As horas de estudos, reuniões chatas e muita papelada compensaram. Não é por acaso que vários medalhões da nossa música ligam pra eles agora.

E nesse resumo rápido estão mais de dez anos de carreira, sete anos da primeira mixtape. Que barulho. Tudo que parecia impossível, hoje é História.

Ver o passado ficando cada vez menor no retrovisor é uma imagem assustadora, sim, mas só para quem ficou parado no tempo. E pior, no mundo da música, é ainda mais fácil criar lodo. Já ouviu a história de que ninguém gosta de piada repetida, mas ama ouvir a música que adora repetidas vezes?

Emicida tem o mérito de com uma carreira extensa e uma coleção de hits poder levar para palcos de grandes festivais um repertório quase todo novo em folha. Seu disco mais recente, é tocado na íntegra. Quem mais faz isso hoje? São poucos. Se pensarmos só nos artistas do mainstream, ainda menos.

Talvez esse seja o seu grande segredo. Emicida tem na cabeça que seu trabalho exige constante reescrita. Esse é seu ritmo. Seu jeito de crescer. Ele já acreditou que precisava trampar muito. E trampou muito. Fez diferença, óbvio, mas depois ele percebeu que o conceito do trabalho como libertação não é coisa nossa.

Ele já acreditou que podia fazer tudo sozinho. E isso fazia sentido no começo. Hoje, sabe o peso da colaboração. Achava bonito um evento só de rap, com todo mundo de boné virado pro lado. Depois sacou que encarar públicos novos era vital pra fazer a diferença. Abraçar a própria história, mas falar sem medo com o mundo, que ele, aliás, fez questão de conhecer.

Conheceu parte da América do Norte, parte da Europa e, mais importante, uma parte da África. Viu que o aviso de Djavan estava certo, voltou mudado mais uma vez. O encontro foi forte e aí mais uma vez pesou a capacidade do cronista nele. Ou você nunca reparou que “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” é quase um documentário rodado em Cabo Verde e Angola? O filme está nas músicas, é só encontrar.

“Ei moleque, mantenha-se vivo
E verá que virá que virá, que virá, que virá,
Que virá, que virá, que virá, que virá, que virá
(O novo sol vai brilhar, é preciso renascer e entender o jogo
Ontem tive que morrer, pra começar de novo)”

Os fãs querem ver os próximos passos. Eles virão. Com força, com o que precisa ser dito. Emicida tem uma biografia pronta para ficar desatualizada agora. É só o começo.