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A sociedade precisa escutar o que essas mulheres têm a dizer.” Fernando Sousa, co-diretor do curta.

Fernando Sousa e Gabriel Barbosa entraram numa missão difícil: contar o luto das famílias de vítimas da altíssima violência da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro; trazendo uma visão crítica sobre a atuação do Estado através de sua força policial na região, em especial sobre à violência contra o jovem negro.

É difícil ver esse filme sem se emocionar e ao mesmo passo, se revoltar. Não é culpa do filme, é da vida real. O filme só fez o que qualquer documentário bom faz: o serviço de traduzir com fidelidade a realidade do seu tema. Aqui no caso, a brutal violência periférica da Baixada Fluminense, que tem uma periferia igual à todas do Brasil.

Você sabe, o Edi Rock cantou: “periferia é periferia em qualquer lugar.”

Confira o trailer do filme:

Os diretores Fernando e Gabriel pediram à Laboratório Fantasma liberação para usarem a canção “Mãe”, do segundo álbum do Emicida, “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa…” na trilha do filme. Tem tudo a ver mesmo. Parece que foi escrita para o filme. Trilha concedida e é uma honra estar envolvido numa obra tão delicada e real sobre o Brasil. Sobre a mãe que vê sua cria ir embora antes dela, quebrando completamente a ordem natural da vida, por conta de políticas truculentas e atrasadas. “Nossos Mortos Têm Voz” é isso. E hoje, você pode assistir a estreia nacional do filme no Canal Brasil, às 17:30. Com reprises dia 28/8 ao meio-dia e meia e no dia 2/9 às 8 da manhã.

A gente abriu espaço para descobrir algumas coisas com o Fernando, para você entender sobre, além do do processo do filme, também essa parte tão nefasta da história do Rio de Janeiro. Após a entrevista, sério, fique atento nos horários que passamos aqui, e assista “Nossos mortos têm voz” no Canal Brasil

Ronald: Da onde veio o estalo de contar essas histórias?

Fernando: No dia 31 de março de 2005, 29 pessoas foram assassinadas por policiais militares do 15º BPM (Caxias) que, insatisfeitos com a recente troca de comando do batalhão, se reuniram em um bar e em seguida saíram atirando a esmo contra pessoas com as quais cruzavam pelas ruas e comércios das cidades de Queimados e Nova Iguaçu. Trata-se da maior chacina que se tem registro oficial no Estado do Rio de Janeiro. A história da chacina da Baixada sintetiza de forma cruel o envolvimento histórico de agentes públicos do Estado na organização do crime na região, o que remonta ao período do regime militar. Foi durante o regime militar que se consolidou a atuação dos grupos de matadores e esquadrões da morte na Baixada, com recursos financeiros e humanos da ditadura. A ditadura civil-empresarial-militar foi fundamental para organização de uma estrutura que mais atualmente passamos a identificar como milícias. A organização da economia política do crime na Baixada Fluminense foi viabilizada através da atuação direta ou indireta de agentes ligados aos governos militares, na medida em que naquele período o regime favoreceu a projeção dos esquadrões da morte, seja fortalecendo a atuação desses grupos ou se apoiando na eficiência que eles tinham no exercício do controle político, econômico e social. Se pensarmos bem, é possível afirmar que a origem dos esquadrões da morte no regime militar e a atuação das milícias no regime democrático conformam a dimensão ilegal da atuação de agentes de Estado. A composição da criminalidade violenta na Baixada Fluminense conta com a participação de agentes das diferentes instâncias do Estado, seja do poder executivo locais, judiciário, legislativo e funcionários públicos da área de segurança. Todavia, a região acaba não ocupando a devida centralidade no debate sobre a implementação de políticas públicas na área de segurança na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Inicialmente, a ideia era produzir o documentário ao longo de 2014, pois a intenção era produzir um filme que pudesse ser lançado em março de 2015, ocasião em que a chacina da Baixada completaria dez anos. A produção do filme Nossos Mortos Têm Voz só foi viabilizada em 2017, através da parceria da Quiprocó Filmes com o Fórum Grita Baixada e o Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu, instituições que tem uma atuação de longa data na promoção e defesa dos direitos humanos na Baixada Fluminense. Desde a concepção do projeto, a proposta era que o filme contribuísse com a atuação e fortalecimento da Rede de Mães e Familiares Vítimas da Violência de Estado na Baixada Fluminense e que conferisse mais visibilidade para o grave cenário de violações de direitos humanos e de violência de Estado na Baixada Fluminense.

Ronald: O que foi mais difícil no processo de coleta desses depoimentos?

Fernando: São histórias marcadas pelo sofrimento e dor provocadas pela violência de Estado e esse tipo de violência não se encerra no ato do assassinato. Essas mães e familiares continuam a ser violentadas pelo Estado quando buscam o acesso à justiça nos diferentes órgãos do Estado. “Nossos Mortos Têm Voz” é um grito de dor e sofrimento, ao mesmo tempo em que presta uma homenagem à memória das vítimas da violência de Estado, mas é sobretudo um grito que sintetiza a luta pelo direito à vida. Infelizmente, convivemos com um modelo de segurança pautado pela lógica bélica e militarizada e as maiores vítimas da violência de Estado oriunda desse modelo são os jovens negros moradores de favelas e periferias. Tudo isso com o respaldo de parcela considerável de uma sociedade estruturada no racismo. O racismo cruel e violento e está em todos os espaços da nossa sociedade.

Ronald: Você e o Gabriel estudaram muito sobre o assunto. E conviveram com essas famílias. Durante o processo de realização do filme, vocês ficaram mais desesperançosos ou você consegue ver um cenário onde com as mudanças corretas, a gente evite que essas mortes aconteçam? O que a experiência te faz propor?

Fernando: Com relação à política de segurança pública, não temos como ser otimistas num contexto de intervenção militar federal no Rio de Janeiro. Essa intervenção segue o rumo de sempre ao empregar muitos recursos humanos e financeiros em operações em favelas e periferias, que acabam tendo como consequência mais violações de direitos e assassinatos de jovens negros. Eleita com mais de 40 mil votos, cinco meses depois não temos respostas sobre quem mandou matar e quem matou Marielle e o motorista Anderson. Esse caso revela que não há investimentos em inteligência que permita uma maior elucidação em investigações de casos de assassinato. Em 2017, 64 mil pessoas foram assassinadas em nosso país. Não vamos superar esse cenário de violência com um modelo de segurança pautado pela guerra aos pobres e negros. Apesar disso tudo, nossa esperança reside na força da luta das mães e familiares vítimas da violência de Estado na Baixada Fluminense, no Rio, Fortaleza, São Paulo e tantas outras partes do Brasil e do mundo. Essas mulheres precisam ser escutadas e as suas questões consideradas e respeitadas. Terminamos o filme com essa certeza. A sociedade precisa escutar o que essas mulheres têm a dizer.

 

Ronald Rios

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