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Ano passado, o Emicida deu um vôo ali no Equador para encontrar um camarada: Guanaco. O cara fez o corre dele na independência – artística e de negócios. Sujeito curioso, pesquisador e aberto a experimentar coisas novas no estúdio. Guanaco sabe o valor e o peso que a palavra de um MC para o povo que lhe segue. Lembra alguém que você conhece? Pois é, a parceria não veio à toa.

“Cholocización” é a música que saiu hoje dos dois. Você confere agora uma conversa com ambos, que falam sobre a riqueza não-explorada da música latina, sobre como o mundo está abrindo as portas pros ritmos daqui e a importância que é fazermos conexões maneiros com nossos hermanos de continente.

RONALD: Como você vê o momento da música latina pro mundo? Há uma sequência de hits vindo daqui. Já era hora de nos ouvirem além dos hits esporádicos tipo La Vida Loka?

EMICIDA: Eu sempre ouvi músicas de lugares vizinhos do Brasil, sou um grande fã de Atahualpa Yupanki, Susana Baca, Julio Jaramilio, Actitud María Marta, Ana Tijoux isso para citar alguns. Acho que nesse momento o mainstream tem se apropriado mais disso, mas por sermos vizinhos de países que falam espanhol e pela proximidade das duas línguas as músicas de ambos os lados sempre foram para além dos limites geográficos. Mas não acho novo. De tempos em tempos sempre tem um hit em espanhol pro Mundo. Macarena, os Julio Iglesias da vida e agora tem o Despacito e os derivados dele. O reggaetown tá correndo há bastante tempo. É um ritmo importante, pra variar: filho da África também. O Dad Yankee já tinha explodido com gasolina nas antigas. Bacana ver o cara correndo ainda e conseguindo fazer essas coisas. Mas o que me interessa mais nisso tudo é o intercâmbio cultural que vai conectar nossas paixões e sonhos e nos aproximar de liberdade e independência local, falando de geografia mesmo. Acho triste ter tocado mais de 10 vezes na Alemanha e nunca ter me apresentado no Chile por exemplo. Essas pontes que fazemos tem a intenção de conversar com os vizinhos, se aproximar. Afeto e espaço têm, interesse também. Só precisamos desenvolver um modelo que mercadologicamente possibilite que isso aconteça com mais frequência para artistas que vão além da cultura de hits da indústria.

RONALD: Como foi tocar pro povo do Equador? Pela proximidade dos idiomas, é uma diferença menor do que tocar pra plateias americanas e europeias?

EMICIDA: Nossos amores e nossos sonhos nos conectam com as pessoas da América Latina, temos histórias parecidas, desejos parecidos. Fazer um show no Teatro Sucre – e sendo a primeira vez que um show de rap aconteceu lá naquele teatro -, foi histórico. Receber o Guanaco foi bacana e também ajudou essa ponte a acontecer com mais força. Acho que somos abençoados, o Brasil é um país pelo qual as pessoas têm um grande afeto globalmente falando e demos grandes artistas pro planeta, então você chega com outro respeito nos lugares, uma curiosidade boa que as pessoas vêm dispostas a verem de perto que tipo de som está sendo criado no país que deu Pixinguinha, Tom Jobim e João Gilberto pro mundo.

RONALD: O que viu no Guanaco que fez você querer colaborar com ele?

EMICIDA: Guanaco é um cara que corre e ama o Hip Hop. É prático, rápido e faz de tudo tipo eu, acompanhando os 360 graus da sua carreira artística. Isso nos conectou instantaneamente.

RONALD: Você tem colaborado com mais artistas internacionais. Tem algum nome na lista que você pensa “quero colar”?

EMICIDA: Quase rolou o Calle 13 uma vez, mas infelizmente ambos estávamos sem agenda e sem tempo. Qualquer hora rola. Sou fã deles.

RONALD: Não ouvimos muito o Equador aqui. Por que somos tão distantes de nossos vizinhos? Acha que esse tipo de colaboração serve pra construir essa ponte?

EMICIDA: É meio que um fruto das ditaduras essa distância também. A conexão cultural sugere autonomia em alguma instância. Conectar as narrativas nos faz mais fortes e isso enfraquecia aquela estrutura militar que continua a nos assombrar no século 21. Isso fez com que a gente considerasse mais próximo se conectar com a Europa e com os Estados Unidos. Cultura é uma guerra também, mistura aí colonização e imperialismo. Tudo isso acaba criando uma distância que geograficamente é ridícula mas se torna um abismo por que somos ensinados que o hemisfério norte é o ápice da evolução humana, o que é uma noção bem pobre da realidade inclusive.

RONALD: É cedo demais ou já podemos falar em carreira internacional do Emicida? Até porque não é de hoje que você faz algo com estrangeiros. O Doozicabraba foi lá em 2011. Você se preocupa com esses passos ou as colaborações são mais incidentais?

EMICIDA: Desde 2011 circulamos por outros países. Europa, Ásia, América latina e África. Acho que estamos construindo devagar mas com solidez e respeito o nosso caminho no exterior. O único continente que não visitamos foi a Oceania. Acho isso bastante significativo para um artista com uma proposta artística como a minha. Devagarzinho vamos estendendo os tentáculos, sempre na bolinha de meia… tudo é estratégico…


RONALD: Normalmente, não temos colaborações de MCs brasileiros com MCs de outros cantos da América Latina. Como rolou essa parceria?

GUANACO: Essa conexão é necessária, algo que deveria acontecer com mais frequência e eu não falo apenas do ponto de expansão dos mercados. Historicamente, temos muitos eventos paralelos que nos aproximam culturalmente. A América Latina como um todo tem muitas lutas semelhantes, muitas coisas importantes que podemos dizer juntos. No caso da nossa relação com o Brasil é a língua que marca a distância, mas para compensar essas diferenças há uma curiosidade mútua e de minha parte uma enorme admiração pela cultura brasileira e pelos MCs de seu país.

RONALD: Como foi receber o Emicida tocando no Equador?

GUANACO: Foi um ato de emancipação da cultura Hip Hop no Equador. Foi a primeira vez que um show de música rap entrou no Teatro Nacional Sucre. É um espaço emblemático das artes cênicas, um lugar historicamente utilizado para o jazz, balé, teatro ópera etc. Mas onde o Hip Hop estava levantando a bandeira lá pela primeira vez e foi realmente um show emocionante. A casa estava lotada e o público abraçou tanto a proposta do Emicida como a minha, que incluem o empoderamento de nossa identidade cultural. A qualidade humana que o Emicida tem é o que o faz brilhar mais como artista. A gente clicou de primeira, sabe, irmãos que a música dá. Comemos comida equatoriana juntos, tocamos juntos no palco, no estúdio, gravamos videoclipe… foi uma visita rápida mas que criou um elo poderoso entre nossa arte. A colonização é um grão de areia que contribui para o processo de nossos países se tornarem conhecidos e reconhecidos.

RONALD: Está empolgado em transmitir sua mensagem para o Brasil?

GUANACO: Bem, há dois anos atrás eu ouvia “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa…” em casa com meus filhos e gostávamos muito. Nunca pensei que gravaríamos uma música com Emicida. Quando começamos o diálogo para que a apresentação rolasse, tivemos que falar sobre o empoderamento da América Latina e sobre este preciso momento sociocultural. A colonização fala de nossas forças como povos latino-americanos. A música é montada em um ritmo 6/8, muito usado pela nossa música afro-equatoriana com toques de San Juanito que é um gênero indígena equatoriano das montanhas do norte do país e mais elementos crioulos como a cumbia andina. Eu estou muito orgulhoso de como a música soa, do que a letra diz e como será o vídeo, é uma ótima produção.

GUANACO: Essa preciosa oportunidade de poder expor minha música a novos públicos é uma alegria imensa. Dá um frio na barriga não saber como o público brasileiro vai reagir! E estou com muita vontade de tocar essa música no Brasil. Por outro lado, tenho certeza que o povo do Equador vai abraçar. Bem, nada é uma certeza, né? Os ouvintes que vão dar a palavra final!

RONALD: Com tantos hits de projeção mundial oriundos da América do Sul, é a hora da música latina? E por que demorou tanto?

GUANACO: Vou começar dizendo que é um ótimo momento para a música do Equador. Somos um país sem uma indústria musical, mas com muitos empresários já exportando propostas daqui. Gostaria de convidar os irmãos e as irmãs brasileiros a conhecer nossa música do meu país. Das tradicionais até às novas tendências. Acho que somos um marco para descobrir. Voltando ao assunto, acho que a globalização e o uso das tecnologias deram poder aos sem voz e bem, agora estamos na indústria. Acho que é um bom momento porque pode ser exposto do experimental ao popular. Mas seja lá o que você ouvir de latino americano, o fato de vir daqui é um atrativo que devemos aproveitar.

Ronald Rios

Ouça “Cholonización” abaixo e siga Guanaco no Instagram e Twitter.

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