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“Hoje cedo” é um de meus mais profundos desabafos

 

As vezes você simplesmente se cansa e explode. Ela nasceu disso, dessa explosão. Literalmente como um pedido de socorro. Dias ruins como os que todos tem, de acordo com a frequência, conseguem nos empurrar para a beirada de um abismo muito perigoso. E por mais que aos olhos de uns nossa vida pareça uma festa sem fim, quando as cortinas se fecham, existem muitas lágrimas entre os restos de maquiagem. É difícil falar sobre isso sem parecer que se está chorando de barriga cheia, first world problems. Mas no final do expediente, todos constatamos que somos carga perecível, a diferença é o grau de destruição presente em nossa rotina. Benções e maldições brincam de ciranda no cotidiano de quem vence, na corrida pelo maior prêmio, aquela entrevista importante, pelo melhor contrato, não são raras as vezes em que a gente só desejaria ter um ombro pra chorar. Uma vez vi Q-Tip falou sobre o benefício de ser vulnerável, que precisávamos ter a liberdade de expor nossas feridas, falhas e imperfeições de maneira que as pessoas ao verem isso, seriam educadas a lidar melhor com as suas próprias falhas e consequentemente com as dos outros também. Esse negócio de brincar de super homem é perigoso, na sombra gerada pelos holofotes, demônios se alimentam e aguardam pacientemente o momento em que vamos titubear. Cantar com a alma é  como dançar num campo minado. Hoje mais que nunca.

Essa rima, lembrando de uma conversa com o mestre James Lino, é um daqueles momentos em que você arranca o coração do próprio peito e esfrega ele em uma folha até que a vida faça algum sentido.

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é e cantar sobre as agruras de ser artista é complexo, principalmente quando você consegue lembrar nitidamente do quão doloroso é não ser artista. Poucas coisas doem tanto quanto ser um artista, mas não poder estar próximo da arte. Aí é onde a Amy Whinehouse faz sentido e a gente acha menos graça na foto do artista destruído que viraliza. Material perecível.

Sabe-se lá o tamanho do demônio daquela jornada.

Eu, assim como dizia meu grande professor Wilson das Neves, não sou um cantor. Cantor é o Luciano Pavarotti, eu sou um contador de histórias, posto importantíssimo nesse tempo. Busquei chamar pra dividir os vocais comigo nessa história uma artista que sempre considerei visceral, profunda, competente e sincera a ponto de poder entrar nessa história e enxergar cada pontinho dela sem carecer de explicações, a Pitty é essa artista. Felipe Vassão já tinha captado pra onde queríamos ir nesse som quando iniciou a produção.

O verso inédito dela (rimando pra caralho!) é nada mais do que a constatação disso. Ela já havia arriscado umas rimas em 2013, mas achou por algum motivo aquilo podia melhorar, assim como vinho, ela retornou nessa sessão com o coração na ponta da chuteira e acrescentou de uma forma que nem parecia ser possível. Artistas tem essa mania de desafiar as leis do possível.

É uma honra ser contemporâneo dela, é uma honra poder ter conseguido fazer esse som e sintetizado 100% desse passeio caótico que é viver o seu sonho e viver do seu sonho.

Somos instrumentos de algo maior que liga a todos, a música deixa isso evidente sempre, todos somos um e entre sorrisos e lágrimas – somos todos material perecível.

PS- Triste noticia da manhã: descanse em paz grande professor Miranda. Seu sorriso, sotaque e histórias farão falta em nosso universo que continua a brilhar, mas faltando uma estrela muito bonita. Obrigado, que a terra lhe seja leve mestre.

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